Entre as instituições presentes nas diversas sociedades humanas, a religião afigura-se como uma das principais e de significativo caráter sócio-cultural, portanto, formador de identidades (BERGER, 1985; GEERTZ, 1989; ALVES, 1999).
Berger (1985) – resumindo fundamentos das teorias elaboradas por Durkheim, Marx e Weber – nos diz que num processo dialético fundamental o homem nasce inacabado como ser e torna-se homem, biológica e culturalmente, em contato com o ambiente e com o(s) grupo(s) social(is) ao(s) qual(is) vai filiar-se ou com o(s) qual(is) vai relacionar-se ao longo de sua vida.
O homem, pois, constrói conjuntamente um mundo – que o precede e que prescinde dele enquanto indivíduo – a fim de encontrar um equilíbrio que o permita viver e reproduzir-se. Esse equilíbrio traduz-se em “ordem”, “sentido”. A sociedade é guardiã dessa ordem e desse sentido.
Assim, viver num mundo social é partilhar de uma ordem socialmente significativa. De um ethos que nos é comum (GEERTZ, 1989). Por isso nossa premente necessidade de convívio e de criação de instituições que nos permitam certa unidade/coesão social. Construímos, assim, um nomos[2], ou cosmos, “como um escudo contra o terror” (BERGER, 1985: p.35); como “diques contra o caos” (GEERTZ, 1989: p. 26); terror e caos que se apresentam como a incerteza, a dor e o sofrimento de um mundo sem sentido.
O cosmos sagrado, postulado pela religião, nos coloca em uma vida ordenada, dotada de significado, longe da anomia, do temor da possibilidade do sofrimento sem sentido, pois que ela (religião) nos fornece “conforto” por meio de instrumentos e pensamentos capazes de a tudo explicar:
“A religião ajusta as ações humanas a uma ordem cósmica imaginada e projeta imagens de ordem cósmica no plano da experiência humana (...)” (GEERTZ, 1989: p. 67).
Pode-se pensar, também, que a religião nos fornece um outro tipo de “conforto”: o de nos sabermos pertencentes a um grupo, a um lugar, a uma realidade; sendo que isto significa compartilhar entendimentos, esperanças e crenças; entender e ser compreendido. Enfim, todo o conforto que se pode esperar de um abrigo acolhedor e seguro.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALVES, Rubem. O que é Religião? São Paulo: Loyola, 1999.
BERGER, Peter L. O Dossel Sagrado – elementos para uma teoria sociológica da religião. 2ª ed. São Paulo: Ed. Paulus, 1985.
GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: LTC Editora, 1989.
[1] Adaptação do texto apresentado à disciplina Antropologia da Religião, ministra pelo Prof° Dr. Raymundo Heraldo Maués, no mestrado em Antropologia da Universidade Federal do Pará, no 1° semestre de 2008;
[2] Berger utiliza o termo nomos como derivativo do termo anomia, da teoria durkheimiana.
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
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