segunda-feira, 20 de abril de 2009

Zona Vermelha

Ainda hoje caminho pelas ruas do meu bairro. Mas não mais é o caminhar sossegado e prazeroso de outrora. Nem para mim, nem para a maioria. Mudou de cor.
Do início que recordo tudo era verde – de inicial, primevo.
Hoje, muitos anos idos, ainda a lama, os esgotos a céu aberto, as construções descuidadas e os mesmos meninos e meninas pés-descalços a brincar nas poças – marrom e cinza predominam.
Ainda que sempre tenha sido um bairro eivado de pobrezas – tradicional nas periferias de Belém – tudo está mudado! E as mudanças presenciadas hoje se revelam para além das ausências sentidas dos serviços e equipamentos urbanos necessários à comodidade ou, minimante, à reprodução de sujeitos e coletividades saudáveis em uma metrópole.
Foi-se embora a cordialidade, a intimidade, a conversa amigável, os encontros nas esquinas e portas de casas. O corrente é um pronto atendimento ao velado toque de recolher imposto aos cidadãos deste lugar. Retirar-se. Esconder-se. Apartar-se. Instalou-se o branco (de vazio).
O que vejo agora atormenta ainda mais pois que, não precisando de palavras, está nos olhares cansados e temerosos de quase todos os passantes. Ou ainda que hajam conversas, são reclusas, miúdas, repisadas e limitadas às soleiras que limitam o espaço a que nos confinamos cada vez mais, dia-a-dia.
Nossa Zona ficou "vermelha" - na definição do mapeamento estudado e proposto pelas autoridades de segurança pública.
É preciso resistir...

Um comentário:

Anônimo disse...

Não faço comentário de como essa rua está agora, mas sim, daquela que ficou em minha mente. Suas brincadeiras de roda, das amizades, das bonecas... essa rua sim é linda e não vai se apagar de minha memória.